quinta-feira, 15 de novembro de 2012

"Dependentes" - Capítulo 4 - Liberdade

"Bem, como dizia, a Dark Forest era meu artifício para acabar com meu medo, e eu deveria fugir logo. Comecei a sentir minhas pálpebras pesadas. Precisava dormir. Estava cansada. Afundei meu rosto no travesseiro nada macio e dormi.

Logo de manhã, acordei cedo e fui arrumar minhas coisas para fugir. Meu pai me deu um bom dia com aquele mesmo tom de voz embargado de sempre. Ele ainda acrescentou algumas palavras que eu não consegui ouvir pois só conseguia naquele momento ouvir o chiado da chaleira enferrujada que esquentara água para mim e para o meu pai por muitos anos. Depois dele dar o bom dia falsamente, dei um bom dia num tom mais falso que o dele (meu pai sabia ser falso, mas não conseguia "farejar" falsidade tanto quanto eu). Então eu disse para ele que ia fazer o almoço e que ele estaria pronto de 13:00. Também disse que o almoço estaria delicioso.

Mas com certeza ele não sabia o que eu ia aprontar...

Peguei um dos meus cogumelos "encantados" que faziam a pessoa dormir profundamente e coloquei na sopa de maçãs que eu preparei (maçãs confundem o gosto do cogumelo roxo que eu coloquei). Provei a sopa antes de colocar o cogumelo para ver se realmente estava doce o suficiente para deixar o gosto do cogumelo "invisível". Tive vontade de tomar a sopa, mas sabia que não podia tomar, pois senão eu que ia dormir profundamente.

Esperei pelo meu pai e deixei a sopa na mesa enquanto esfriava (estava extremamente quente, eu até me queimei quando o prato de sopa balançou e respingou na minha mão).
De 13:00 em ponto, o Velho John chegou.
Estava cansado, e suava como nunca.
Falou comigo e disse:
- Sweet Snow! Você fez a maravilhosa sopa de maçãs que sua mãe fazia! Muito Obrigado, apesar de ser sua principal obrigação!

Ignorei o comentário inútil do meu pai.

 - Obrigada pai.

 Meu Deus, como eu era falsa.....

 - Querida, você é bastante educada. Puxou isso da sua mãe
 - Muito obrigada, pai
 - De nada, Snow!

Uma demonstração de pura falsidade

 - A sopa estava deliciosa, Snow.
 - Obrigada.
 - Agora, vou trancar a porta. Não quero que você fuja, não é verdade?

Fiquei calada. Comecei a perceber uma coisa : Meu pai estava começando a cambalear. Estava funcionando. Agora, só restava pegar a chave. Hahahaha, aquele velho ia dormir profundamente agora. Foi quando ele disse:

 - Snow, não estou me sentindo bem. Que tal você trancar a porta, estou bastante tonto. Não fuja, viu?
 - Está bem, pai. Eu tranco a porta

Eu ria por dentro. Estava liberta. Olhei o relógio antigo de madeira que estava na parede e vi que eram 14:00 hs.
A "poção" durava até meia - noite. Eu ia fugir de meia - noite em ponto, na hora em que meu pai acordaria.
Acho que você deve estar se perguntando o por que que eu não fugia logo. Eu vou explicar. Depois de tantos anos de escravidão eterna, queria que o meu pai que nunca cuidara de mim visse que eu estava fugindo. Visse que eu queria que ele ficasse decepcionado e chamasse meu nome. Visse que devia ter cuidado de mim. Visse que ninguém deveria me desafiar. Queria ver tristeza. Queria ver decepção".

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" Já era noite. Estava chovendo. As gotas d'agua estavam caindo sobre a velha janela da cozinha. Gotas solitárias, assim como eu. Eu sabia que deveria ir, mas me dava um apeto no coração...
Não sei por que. Como eu poderia estar triste se eu queria fugir daquele inferno? Humpf, realmente, eu não entendo meus sentimentos. Acho que por isso eu era tão estranha.
Olhei o relógio. Eram 23:59. quando deu meia  - noite, abri a porta vagarosamente com a ajuda da chave e senti uma brisa acariciar meu rosto. Finalmente, tive minha liberdade".

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" Meus pés estavam molhados por conta da chuva que parecia eterna. A Lua era a minha única companheira naquele momento. Iluminava meus caminhos, toda hora. Ouvi um berro abafado. Reconheci a voz. Meu pai. Praguejava e dizia:

 - Snow, sua maldita! Por que você fez isso comigo, por quê?
 Ignorei. Agora estava realizada. A voz daquele homem berrando e praguejando contra mim fazia com que eu me sentisse poderosa. Só não sei o porquê eu me sentia tão poderosa.
Ele continuava berrando como um louco:
 - Snow, eu quero que você morra! Tomara que seja envenenada! Sua maldita!

Me distanciei sem falar nada. Eu não ia morrer, de qualquer jeito. Eu era jovem, tinha saúde e era inteligente o suficiente para não ser enganada por ninguém.
Meu pai continuou berrando. Continuei andando e fiz de conta que não ouvia nada. Quando vi, já estava longe o suficiente de casa e perto demais da Dark Forest. A hora era agora."

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